Sem Poesia Concreta

Fazia um tempo eu não entrava neste quarto. Na correria do dia a dia, sempre passava reto pelo corredor, quase sem lembrar da porta que me trazia aqui. Já uns dias vinha criando coragem pra entrar, hoje consegui. A poeira tomou conta de quase todos os cantos, uma ou outra coisa espalhada pelo meio desorganizadamente, a me lembrar de que preciso dar um destino a elas, guardar, jogar fora, tornar vivas, enfim, algo precisa ser feito. Limpei toda a poeira com calma, guardei com carinho algumas coisas, já que, sendo este quarto só meu, como que revele pensamentos meus ainda que eu não os conheça, não precisam ser jogadas fora, apenas guardadas com cuidado e carinho. Nas paredes reavivei algumas memórias, antigos sons, cores já quase desbotadas, imagens que ainda me comovem, outras com as quais ainda não consigo lidar. No coração, um certo desconforto, uma fragilidade. Quem sabe novas tintas e canções? Quem sabe só limpar? Quem sabe amanhã?… Abri a janela e deixei entrar o sol…

Absurdo da Orelha, de A Euterpia

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