Publicado por: oequilibriocego em: 21/10/2009
O GRITO
Para ler escutando: Eu caçador de mim (http://www.youtube.com/watch?v=H8FJLdtE3vo)
- Olá…Como estás? Queria te ver. Eu sei. Não fui muito delicada em nosso último encontro. Faz um tempo. Por isso te procuro, pelo menos tento. Sei onde te encontrar, só não sei como. Aliás, isto sempre acontece, procuro teus olhos no reflexo, mas eles fazem parecer que não queres me deixar entrar, são portas cerradas, ou que sempre mudam de lugar ao menor sinal de que possa estar quente. Quero me explicar. Sim, “me explicar”! Pode ser que o que eu diga não te faça diferença alguma, porque já conheces, mas o sentido da frase não é esse, a explicação talvez seja mais para mim que pra você. Há um tempo, considerável até, permeias minhas escolhas, infelizmente e por culpa minha, sem que fosses, em muitas horas, uma opção. Falta de coragem talvez, medo, desconhecimento, não sei. O fato é que há um desejo incontrolável de te desvendar e saber o que pretendes de mim, mas não sei por onde começar, ou terminar. Eu poderia simplesmente tentar esquecer, será que consigo? Às vezes te procuro em outros lugares que não aí, em outros olhos, onde é óbvio que não te encontrarei. Fazes parte e ao mesmo tempo não, existes pra mim e eu pra você, e só. Tudo isto gera um pouco de confusão e indelicadeza muitas horas, mas sabes que não sou assim, e essas poucas horas são reflexos dessas estradas paralelas em que vivemos, tempos distintos em que teus sinais não me parecem claros.
Publicado por: oequilibriocego em: 12/08/2009
Composição: Chico César/ Vanessa da Mata
“Já se pode ver ao longe
A senhora com a lata na cabeça
Equilibrando a lata vesga
Mais do que o corpo dita
O que faz e equilíbrio cego
A lata não mostra
O corpo que entorta
Pra lata ficar reta
Pra cada braço uma força
De força não geme uma nota
A lata só cerca, não leva
A água na estrada morta
E a força nunca seca
Pra água que é tão pouca”
Publicado por: oequilibriocego em: 07/08/2009
Estas últimas semanas têm sido um pouco confusas. Como o movimento da maré de ressaca que vem com toda a força e arrasta tudo que vem pela frente e depois calmamente vai embora levando a sujeira, a vida se desenhou desde o último post.
O medo ainda persistiu por um tempo significativo, chegou a ser percebido aos olhos alheios. Mas foi embora e eu me descobri a mais comum das mortais, que gosta de mimo, como flores inesperadas e um fim de semana romântico na praia, com caminhada na areia de mãos dadas, luz da lua, carinhos.
Sim, eu sou normal!
Voltei ao prumo de tal forma que quase perdi a inspiração pra postar e ela ficou meio assim bloqueada pelo fator trabalho que não me deixou energias para muito pensamento e abstração. No pouco tempo restante, um outro atrativo me ocupou, o desenho. Movimento um pouco acentuado para alegrar uma grande amiga hospitalizada.
Além de ótimo passa-tempo, canaliza e liberta uma energia interior que só pode ser expressa desta forma… vão alguns ai…
Agora eu descobri uma nova brincadeira que é tranformar o desenho via computador, que foi o que fiz no Pierrot, achei engraçado.
Publicado por: oequilibriocego em: 13/07/2009
Para ler escutando: http://www.youtube.com/watch?v=r_mGcIYgrTE (Jorge Vercilo)
“…não estejais inquietos pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. A cada dia basta o seu mal” (Passagem bíblica – Cap XXV, item 6).
Normalmente não gosto de citações bíblicas, sobretudo porque contesto a validade e autenticidade do livro como documento histórico e sobre o qual se venha a fundamentar alguma crença religiosa. Mas enfim… Gostei da citação porque totalmente afeita à minha realidade neste momento. Também acho válido fazer constar que não sabia, até ler a citação, exatamente sobre qual dos 487 assuntos que tinha em mente eu iria postar.
Resolvi falar sobre pré-ocupação, a que me acompanha, ou melhor, acompanhava até então. Os mais próximos sabem que há um tempo passei por um momento bem difícil, de tristeza avassaladora que só não varreu por completo o que sou porque a fé me dá a certeza de que nenhum sofrimento é vão e todos passam. O sofrimento foi embora da mesma forma que veio, mas não sem as suas sequelas, algumas conscientes, outras nem tanto, mas todas igualmente sentidas em cada poro. Uma delas insistia na mente até hoje de manhã quando li a citação.
Não sei se nos acostumamos a sofrer ou, se quando o sofrimento é tão inesperado e forte ao ponto de fazer parecer falsa toda a estrutura que lhe cerca, ele parece não querer deixar de existir. Pois é, isto aconteceu comigo, fiquei com medo, e olha que a felicidade se reinstalou na minha vida já tem um tempo, mas o medo ficava ali, sempre presente, como se entre eu ela, existisse um olhar à espreita, pronto pra estragar com tudo o tempo todo. Óbvio que essa presença, que só eu via, acabava por me distrair do tudo quanto belo se desenhava especialmente no último fim de semana. Como relataria um bom inquérito policial, total ato de “desinteligência”!
Agora de volta às aulas de redação, preciso ligar isto à citação bíblica que eu transcrevi. Neste caso a pré-ocupação inútil se confunde com o tal medo, com os olhos ocultos, com a inquietação pelo dia de amanhã, que cega para tanto para o mal, quanto para o bem de hoje.
Que bom que esse estágio não dura para sempre. Que bom se permitir, inclusive a possibilidade de sofrer de novo. Que bom tirar a nuvem que encobre o delicado, que bom “renascer das cinzas”. Assunto encerrado, medo encerrado, pré-ocupação finda!
Sim, vale à pena!
*A fênix ou fénix (em grego ϕοῖνιξ) é um pássaro da mitologia grega e egípcia que quando morria entrava em auto-combustão e passado algum tempo renascia das próprias cinzas. Outra característica da fênix é sua força que a faz transportar em vôo cargas muito pesadas, havendo lendas nas quais chega a carregar elefantes. (http://pt.wikipedia.org/wiki/F%C3%AAnix, disponível em 13 de julho de 2009)
Publicado por: oequilibriocego em: 26/06/2009
Para ler escutando Ainda Bem (Vanessa da Matta e Liminha): http://www.youtube.com/watch?v=GLFvTEhX_AQ
Chovia, o céu parecia um desenho triste de tinta guache cinzenta. Era mais uma tarde enfadonha naquele escritório. Pilhas e pilhas de processo e as divisórias escuras me olhavam dando conta da minha total impotência e me diminuindo do meu 1 metro e meio. Se eu fumasse seria a hora de acender mais um cigarro, como não fumo, tentei um esconderijo na paisagem da janela, em vão. A pasmaceira só foi quebrada ao toque estridente do interfone anunciando a chegada de um cliente.
Segundos depois, um jovem bonito, aparentando seus trinta e poucos anos e descendência italiana, mais tarde confirmada pelo sobrenome, desabava em minha frente, desconsolado. De volta ao túnel do tempo, nos intervalos em que a emoção permitiu, começou a me contar.
Há dez anos atrás, na academia que frequentava, conheceu a mulher da sua vida, iniciou um intenso romance que sete anos depois resultou num casamento e numa linda e desejada gravidez. Os preparativos alegravam e preenchiam a vida do casal. O bebê tinha pressa e não conseguiu esperar até a data agendada com a médica. Nasceu pouco antes e foi celebrado como milagre da vida que representava naquela manhã de verão. No dia seguinte mãe e filho tiveram alta e puderam ir pra casa.
Mas, não sabia se por ironia do destino, ou se por qualquer outra razão, a vida resolveu se por à prova. No mesmo dia que chegou em casa, a jovem mãe começou a se sentir mal, ao fim da tarde vieram a febre, tonturas e muitas dores pelo corpo. O pai ficou apreensivo e não quis esperar o dia seguinte, saiu de casa com esposa e filho recém-nascido nos braços de volta para o hospital. Lá chegando, o atendimento paliativo que em nada resolveu. Decidiu procurar outro hospital, um pouco mais caro, mas com atendimento melhor.
Pra sua surpresa, o caso era grave e a internação foi imediata. Medicamentos fortes, mas na primeira semana o quadro era de piora, alguns sinais de debilidade, até a total falta de lucidez, a febre não cedia, nem as dores e as náuseas. Foram dias de angústia até o diagnóstico e a decisão do coma induzido. Foram exatos quatro meses em que aquele jovem, mergulhado na dor e no mais profundo amor, foi transformado num verdadeiro super-herói, pai e mãe de seu próprio filho, mas sem poderes para salvar a mulher que tanto amava, prostrada em uma cama de UTI.
Fé e amor, o mais intenso e puro que já tive notícia, empurraram aquele rapaz para que suportasse todos os meses de sofrimento por não poder salvar sua mulher e cuidando do mais delicado de seus presentes, seu próprio filho. Vencido o longo tratamento, era hora de diminuir a sedação, e trazer de volta à vida a esposa. A esperança marejada nos olhos daquele homem menino.
Mas a doença havia deixado seqüelas e sobretudo o distanciamento. Até que no réveillon seguinte, ao chegar em casa o rapaz teve a desagradável surpresa de perceber que sua amada esposa havia desaparecido levando seu filho. Entre lágrimas, sirenes e policiais, aquele homem sobrevivia a mais um baque, sem perder as esperanças.
Os meses que se seguiram foram um suplício. Nem esposa, nem filho, contato somente por telefone. Até o dia em que o menino adoeceu gravemente e a mãe chamou o rapaz para ajudá-la. Ele estava cansado, mas não o suficiente para deixar de enxergar que as seqüelas da doença da mãe expuseram seu filho a maus cuidados e por isso ele estava doente. Um misto de desespero, revolta e necessidade de proteger seu bebê lhe trouxeram até o escritório.
Naquele dia discutimos todas as estratégias. Separação, guarda, interdição, qualquer coisa dependia dos laudos médicos sobre a doença da mãe que ainda demorariam a sair. Todos os riscos alertados, inclusive sobre a possibilidade de interdição da mulher e a resposta mais comovente: “Dra. Ela é a mulher da minha vida. Até adoecer ela me deu o meu maior presente. Sempre me fez o homem mais feliz do mundo. Independentemente de qualquer coisa eu vou amá-la e respeitá-la para sempre. Então, pra mim não importa se eu me tornar eternamente responsável pela mãe do meu filho…”. A chuva continuava incessante, e nela busquei esconder minhas lágrimas para continuar a conversa. Felizmente ou infelizmente, não precisamos fazer nada. Ela fez, entrou com pedido de separação judicial o que ficamos sabendo dias depois.
Chegado o dia da audiência, uma tristeza profunda me abateu. Talvez eu tivesse envolvida demais com a emoção daquela história ou simplesmente conseguisse enxergar claramente que o verdadeiro desejo do meu cliente era ter sua família de volta, sua esposa e seu filho, unos. Mas a vida naquele dia resolveu mudar a sorte.
Na entrada do fórum os dois se encontraram. Fazia calor, mais dentro deles do que na rua. Meu telefone tocou, era o cliente, pediu para eu ir até a frente do fórum para conversar com os dois. Felizmente, consegui encontrá-los sem que o advogado dela estivesse por perto. Ela titubeava em prosseguir com o processo e ele insistia em tentar a reconciliação. Em dez minutos de conversa, pude ver reascender a esperança naqueles rostos bonitos. Mas faltava ainda um empurrão.
Resolvi interferir, apelar, tirar a capa de advogada e abrir meu coração, sem medo até mesmo de chorar. Era nítido o amor dos dois, e o amor não no estágio paixão, mas o verdadeiro amor, que une os casais pra vida toda e aquilo tudo, de certa forma, estava posto em minhas pequenas mãos. O amor fiel, zeloso, carinhoso, o amor responsável, o amor que vela o sono e a vida um do outro, que independe de beleza ou dinheiro, o amor que eu mesma busquei e demorei pra encontrar.
Deixei claro pra ela que em nenhum momento a real intenção dele, e ele nem precisava falar, era a separação. O que realmente queria era a esposa e o filho de volta, o sonho de família que ele demorou tanto e trabalhou tanto para conquistar. Vi nos olhos dela a dúvida e a fiz perceber isto. Ora, quem quer se separar não tem crise de consciência em frente ao fórum, simplesmente sobe e assina o termo. E ela tanto não queira isto que quis conversar. Como bom acordo, ambos aceitaram ceder em vários pontos. Lágrimas devidamente contidas, subimos.
O advogado dela esperava na porta da sala de audiência, como muitos colegas, infelizmente, pouco se importava com o que havia de sentimento e de família naquela história, seus honorários precisavam ser pagos e para isso, era imprescindível a separação. Óbvio que de quase albino virou um tomate de tanta raiva de sua própria falha de principiante que me permitiu a conversa a sós com o casal.
Entramos na audiência, as lágrimas novamente afloraram, desta vez, até no próprio juiz, que, tomadas as providências de hábito, não se conteve de alegria em não sacramentar um fim, mas sim um novo começo.
Publicado por: oequilibriocego em: 05/06/2009
* para ler escutando As Chicas – Eu apenas queria que você soubesse (http://www.youtube.com/watch?v=54GDQDH4fHM)
Era o fim de uma manhã de sábado, o frio da noite não tinha deixado qualquer sinal além da inadequação da minha roupa.
Depois de alguns minutos de carro por estreitas ruas, paramos em frente a uma casa amarela. Na calçada, a placa de proibido estacionar. Subimos alguns degraus e fomos recebidas por Lampião e Maria Bonita, algumas mulatas sorridentes e outros tantos bonecos cabeçudos. Entramos. Nas paredes, personagens conhecidos de antigamente, brinquedos de um tempo que às vezes volta no cheiro, quadros e cores. No fundo, uma tela engraçada insistia em me recordar o mundo que naquele dia eu só desejava esquecer.
Um grande cachorro branco se sentiu incomodado e latiu. Logo sua dona apareceu, jovem, bonita, de fala mansa, apressou-se em mostrar todas as cores e sensações daquele labirindo mágico. Mostrou a casa e uma sala que mais parecia uma barriga de grávida, prenha de bonecos, de sonhos e de alegria.
Os bonecos me sorriam como que para mostrar algum segredo e eu me deixei levar. Ela me olhava com um encanto de anteontem. Atrás das cortinas, na penumbra, bonecos, sanfonas, um pequeno equipamento de som e o palco, onde todas as formas e sons ganhavam vida e onde eu permiti me reinventar para trazer de volta o lado bom de matizes há tempo conhecidas.
* CRONÓTOPO - Reporta-se à relação entre as categorias de espaço e tempo. Composto pelas palavras gregas cronos: tempo e topos: lugar, por ele se enfatiza a indissociabilidade destes dois elementos tal como se manifesta nas representações literárias. De uma forma simples, minha companhia de sonhos e cores ao longo do tempo, explicou que ao ser contada, ou relembrada, a história revive e em alguma dimensão ocorre novamente. Como se o passado se fragmentasse repetidamente em seus vários estágios permanecendo vivo.
* INVENTOR DE SONHOS – loja, oficina e teatro de bonecos – em Campinas/SP (www.inventordesonhos.com.br)